terça-feira, 29 de abril de 2008

Aromas das 7 Colinas

Devia ser proibido as pessoas cheirarem mal. Especialmente aquelas que andam de transportes públicos. É inadmissível que às 8h da manhã haja pessoas mal-cheirosas nos autocarros e no metro, porque a estas horas indecentes para se estar acordado as viaturas públicas vão sobrelotadas e têm muito mais utentes do que os previstos "33 passageiros em pé".
Como as ruas de Lisboa ganharam o Guiness na categoria de "buracos em alcatrão" é impreterível que os utentes se agarrem aos varões horizontais colocados acima do nível da cabeça. E é assim que se começa a propagar o odor desagradável e nauseabundo que sobe pelas narinas de pessoas como eu, que vão inocentemente (de banho tomado) a dormitar no autocarro e que acordam bruscamente, como se lhes tivessem espetado um picador de gelo na virilha. Para ajudar há sempre um tipo com um bafo matinal a álcool recozido que vai colado a nós.
Claro que nada disto é comparável com a essência tóxica que emana dos trabalhadores, estudantes, desempregados, pedintes e outros indefinidos lisboetas no regresso a casa. Já não é só o sovaco ácido e o hálito mortal que nos corroem a mucosa nasal! A roupa já sofreu processos químicos ao contactar com o suor e o cabelo já seboso de algumas pessoas mais descuidadas com a higiene pessoal liberta, com os movimentos da cabeça, brisas de frigideira usada há dois dias num jantar de famíla. Concentro-me nestes cheiros para ignorar os ténis do rapaz a meio metro de mim que, mesmo calçados, libertam um cheiro de fazer vomitar as tripas. Para alegrar a festa alguns engraçadinhos ainda soltam umas bufas podres.
Se pensava que, ao sair do metro aos empurrões e cotoveladas (sempre com um lenço na cara), me tinha livrado deste purgatório e podia finalmente descansar o meu aparelho respiratório, enganei-me redondamente. O amigo suspeito e fedorento do meu delinquente vizinho de cima estava sentado nas escadas do meu prédio. Por ter 16 anos, a mãe do fedelho mal-criado nem sempre o deixa sair mas isto não desmotiva o seu amigo, o texugo humanóide, que fica à sua espera o tempo que for preciso (o que pode levar horas). Enquanto espera vai impregnando a madeira das escadas e os tapetes das entradas com o aroma da sovaqueira mal lavada. Ou, provavelmente, não lavada de todo.
O martírio termina quando finalmente entro em casa. Pelo menos até descalçar os ténis.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Tenho um professor que aplica uma determinada frase a todas as doenças que tem o prazer de leccionar. Por exemplo:
- A Língua Azul é, na realidade, uma doença muito séria.
Como se alguma doença fosse para rir. Mas ele gosta de frisar este aspecto das patologias que afectam os nossos animais. As dos humanos são de certeza mais divertidas.

Relatório de uma aula de Reprodução

Hoje em dia existem cerca de 100 touros no mundo desenvolvido. Estes são touros topo de gama são, todos os anos, requisitados para um sessão fotográfica a fim de poderem constar numa revista como, por exemplo, o "Catálogo Rural" ou o "Catálogo de Reprodutores"; um género Ragazza Bovina para vacas. Toda a informação que queiram saber sobre o touro está discriminada: peso, altura, cor da pelagem, características dos cornos, filiação, parâmetros produtivos e reprodutivos, etc., acompanhado da referida fotografia, claro.
Cabe ao produtor de uma exploração bovina escolher o melhor touro tendo em conta o que quer melhorar nas suas vacas e a elasticidade do seu bolso...

Ora, como é que 100 touros conseguem engravidar milhares e milhares de vacas todos os anos? Nada mais simples do que um banco de esperma bovino especializado! Na verdade são chamados Centros de Inseminação Artificial e são constituídos por um grupo de elite de touros cujo sémen é recolhido, avaliado, testado, sexado e, na maioria das vezes, congelado.
Não são permitidas vacas nestes centros, como devem imaginar!... Então como se procede à recolha do sémen? Certamente nenhum homem com perfeita saúde mental se atreve a ir recolhê-lo com um copinho... E sem vacas, como é que estes animais com mais de meia tonelada e mau humor nos fornecem o produto cobiçado?
Ora, ninguém nasce ensinado e é por isso que tem de haver um treino prévio, que consiste em ensinar os touros a ejacular no manequim. Esse treino consiste em saltar um touro estrogenizado (isto é, ao qual foram administradas hormonas femininas); os touros mais inexperientes (virgens) devem assistir a estes saltos. Pura pornografia bovina... homossexual... ao vivo! E continuam a insistir que os veterinários são amigos dos animais...
Observem na figura seguinte um treino; as setas indicam touros que assistem ao treino para aprender.


Depois destes treinos em manequins vivos, o touro experiente passa a utilizar um manequim artificial onde descarrega a sua líbido duas vezes por semana. Após o serviço, o touro afasta-se e é possível observar um homem correr para recolher o precioso fluido (precioso porque vale umas centenas de euros). Um trabalho arriscado com muita adrenalina a correr no sistema circulatório...



Há quem se oponha a estes métodos ditos... pouco humanos... São gastos, nos dias que correm, milhares de euros em conferências internacionais sobre o bem estar animal, sendo um dos mais discutidos o tema da imaculada concepção! É com grande preocupação que os grandes cientistas discutam se será ético uma vaca nunca ver um touro à sua frente e nunca ser montada por ele. O cerne da questão é: como é o estado emocional da vaca após parir um vitelo? É que pensando bem, a coitada não conhece outra coisa que não vacas e de repente sai-lhe um tipo indefeso pela retaguarda!

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Prefiro estar 4h a fazer palpação rectal em vacas com diarreia e flatulência do que 20min no hospital de animais de companhia.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Quando dizem palavrões, não é para nós

Eu já estava atrasada para uma aula no conservatório e quando isto acontece parece que as pessoas fazem de propósito para não passar nem deixar passar. Na Rua da Rosa havia mais trânsito que o costume e tive que subir a rua pelo passeio. De um lado da rua uma velhota andava devagar, do outro um miúdo inconsciente do perigo dos carros saltitava de um lado parao outro. Escolhi o lado da velhota, não sei porquê... Estava a tentar ultrapassá-la mas os carros passavam a uma velocidade superior à permitida nos limites da cidade e apenas me conseguia manter junto à senhora, atrás dela. Ela começou a gritar:
- Passa lá, vá! Fod@-se, c@ralho, put@ que o pariu! Passa lá, passa lá!
E depois encostou-se para eu passar, mas eu estava petrificada.
- Ah, desculpa filha! Pensei que fosses o meu neto!
Acho que sorri (não tenho a certeza) e passei. A senhora ainda gritou:
- Vai com Deus, filha! Vai com Deus!


domingo, 30 de março de 2008

terça-feira, 4 de março de 2008

Para filhos cujas mães têm 33 anos ou mais

No outro dia, o ano passado, estava a estudar com a Susy em minha casa. Entretanto chegou a minha mãe:
- Olá meninas! Que fazem? Ai, acabo de chegar da explicação! Correu bem. O meu aluno vai ter teste amanhã e estava muito nervoso. Ai! Estou estafada! Acho que vou ler um bocadinho antes de fazer o jantar. Isso é só estudo? Está a correr bem? Muito bem, muito bem!

É incrível como ela consegue construir um diálogo sozinha.

E o estudo continuou... A Susy lia os slides da aula sobre Insuficiência Cardíaca Esquerda e amaldiçoava o coração. Eu reparava na forma aerodinâmica do afia-lápis.

De longe ouvimos: AAAAAAAAAAAAAAAAACHTUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUM

Ouviu-se no autocarro que saía da paragem mais próxima de casa.

- Isto foi um espirro? - perguntou a minha amiga.
- Sim.
- A minha mãe também espirra assim.
- É do 25 de Abril.

domingo, 2 de março de 2008

A pérola do Macdonalds

Os estrangeirismos provocam sempre algum desconforto no seio da classe sábia portuguesa.
Os idosos enrolam sempre a lingua, por mais ginasticada que esteja, um número de vezes superior ao necessário quando se trata de pronunciar as palavras importadas.
A titulo exemplificativo, tenho um familiar que adora os carros da "Volsevajen" (diz que têm os melhores motores, deixando de parte outros "hits" da engenharia mecânica).
Na área alimentar, a avó de uma colaboradora minha, janta de longe a longe no "Pato Donald" um hamburguer "gooossstouuuso". Mas este conceituado restaurante de fast-food é possuidor de inumeras alcunhas carinhosas....Ainda hoje numa das minhas incursões pela cidade ouvi um simpático peão alertar o outro:
"O Hospital ainda não é aqui senhora!!! Há que passar primeiro pelo Mike Donalds!!".
"Muito obrigada amigo."
Acho que foi por este motivo que surgiram as respeitadas Universidades da Terceira Idade...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Um dia para me sentir bem comigo mesma

Depois de chegar uma hora atrasada ao exame oral de Clínica e Patologia das Doenças Infecciosas I e depois de o professor me perguntar a subida e descida do Estatuto Sanitário das explorações europeias relativamente à Brucelose (ao que respondi "Desisto, professor" - já bem basta estar potencialmente infectada com a bicheza por comer queijo fresco, não precisam de me fazer perguntas destas), decidi ir para casa.

Apanhei invariavelmente o 723 Desterro ainda a pensar porque raio me calhou a bola nº 3; fui a última pessoa a tirar a bola da urna (claro, tinha chegado atrasada porque não encontrava a sala de exame...) e a cada bola que os meus colegas tiravam eu rezava para que fosse a bola da Brucelose... alguém tinha de ficar com a prova da Brucelose! Quando chegou a minha vez restavam três bolas e calhou-me a nº 3. Obviamente.

No Marquês de Pombal a quase totalidade dos jovens saiu do autocarro para apanhar outro transporte da mesma categoria ou o metro, para depois apanhar outro autocarro e quiçá o comboio.

Restei eu como representante da juventude lisboeta no 723 Desterro; não havia pessoas de meia idade, apenas velhotes. Iniciou-se uma conversa com um final infeliz (para os lados da narradora):
"Está a ver este joelho?!" - guinchou uma velhota de metro e meio com várias ligaduras feiosas à volta do joelho. Bem podiam usar Vetrap que sempre é mais divertido.
O interlocutor da senhora era o marido desgastado e grisalho de uma senhora enrugada de cabelos de cor indefinida.
"Isto foram os estudantes que me empurram quando estava a entrar no autocarro!"
Logo os estudantes, pensei... há imensos jovens delinquentes, mas quem a empurrou foram estudantes... Vejam lá se ela se queixou quando o autocarro estava cheio desses belos espécimens da sociedade? Pois, fez uma espera e encurralou o único exemplar dessa subvalorizada categoria.
Senti vários olhares virados para mim.
"Empurraram-me e eu caí! E nem me ajudaram a levantar, os fedelhos!"
Olhares de profunda indignação na minha direcção, como se tivesse sido eu mesma a empurrar a senhora.
"Nem me ajudaram a levantar e fugiram na galhofa!"
Comecei a ter medo daqueles olhares...
"Estudantes! Não sei o que estudam hoje em dia! Não têm respeito nenhum!"
Ondas de puro ódio geriátrico batiam na minha cara como estaladas. Todo o autocarro olhava para mim como se fosse uma neo-nazi.

Não aguentei a pressão dos olhares e saí numa paragem que não era a minha.

Animal Hospital

Os meus amigos gostam de partilhar comigo as suas experiências particulares, o que eu acho excelente. Só não acho excelente quando a conversa começa com "Sabes aquela série que dá na Sic Mulher, num hospital veterinário?". Quando a conversa começa assim, é possível visualizar fumo a sair dos meus meatos acústicos externos, mas é preciso ter alguma atenção, porque normalmente o cabelo disfarça este fenómeno que tão bem caracteriza o meu estado de espírito quando ouço esta frase pela vigésima quinta vez na semana.
"Sabes aquela série que dá na Sic Mulher, Animal Hospital?"
"Sim, mas não vejo."
"Ohh, porquê? É tão gira!"
"Porque o meu dia-a-dia é exactamente aquilo que vês, por isso quando chego a casa não quero ver mais; quero ver séries fictícias ou estupidificantes. Qualquer coisa que não tenha a ver com veterinária."
"Ahh..."
E com isto penso ter posto um ponto final à conversa. Mas não...
"É que no outro dia foi tão engraçado, porque tratava-se de uma iguana que tinha engolido uma pedra enorme, via-se ao raio X e tudo! Sabes porquê?"
"Porque tinha falta de minerais."
"Sim! Foi isso que o veterinário disse! Viste esse episódio então!"
"Não, não vi..."
Era uma dica, mas pelos vistos foi demasiado subtil...
"E então o veterinário deu-lhe uma coisa na boca com uma seringa..."
"Parafina."
"Sim, exacto! E depois a pedra saiu..."
"No cocó, eu sei."
"Pois! Como é que sabes?"

Quando estiverem com um estudante de veterinária NÃO perguntem se conhece "aquela série que dá na Sic Mulher, Animal Hospital". É a mesma coisa que perguntar a um estudante de Medicina se já escolheu a especialidade (isto é uma dica...).

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O prazer de estudar (com cheirinho a limão)

Tenho uma amiga que descobriu um novo local para estudar. Ela diz que já não consegue ir à biblioteca e em casa distrai-se...
Ela fala comigo e diz: "Este local é muito fixe!!! Fora o cheiro a esgoto, as baratas e o som do aspirador, estuda-se lá muito bem!".
Ela até costuma ser exigente, mas acho que o prazer de estudar é bem maior....

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Aos donos de gatas

Quem tem gatas sabe que quando chega a altura do cio começa um verdadeiro pesadelo - as gatas ficam doidonas, histéricas, chatas, ninfomaníacas, para não mensionar os xixis de odor poderoso em locais indesejados...

Não desesperem caros amigos! De alguma coisa serve o meu adorado curso - posso ajudar-vos.

As gatas não descansam (nem nos deixam descansar) enquanto não ovularem. Para que tal fenómeno ocorra têm de ser estimuladas por um macho. À falta de macho, ou se não querem que a vossa gata fique prenhe, apresento-vos a solução: vocês próprios podem estimular a ovulação da gata. Basta enfiar um cotonete no respectivo local, substituindo o gato. Podem também utilizar canetas Bic. As canetas Parker e Pelikan não têm um efeito tão satisfatório.

Serão abençoados com 15 dias de pura bonança porque após este divinal período de paz a vossa gata apercebe-se de que foi enganada e recomeça a demonstrar a sua luxúria. Podem repetir o processo até que acabe o período reprodutivo.

Ou simplesmete esterilizem a gata - os resultados são brilhantes e definitivamente duradouros e não têm de andar atrás da gata de quinze em quinze dias, quatro vezes por ano.

Boa sorte,
a vossa amiga, futura Sr.ª Veterinária.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Comentário a um blog

Tive o prazer de ler num blog (http://tulipaseperolas.blogs.sapo.pt/19940.html) o texto mais fofinho acerca dos veterinários! Mesmo fofinho. Mas tão idealisticamente errado...

Lamento desiludir-te, mas os animais não olharão para ti com profunda e verdadeira gratidão.
A próxima vez que te virem fogem ou atacam-te pois apenas te recordarão como aquela que lhes espetou a agulha, aquela que cortou demasiado as unhas, a que os cortou ao meio, a que os separou dos donos, a que lhes enfiou uma coisa pelo traseiro acima... Não te iludas, cara colega; nós só fazemos maldades aos bichos...

Indignação

A nossa amada Ministra da Educação aprendeu uma palavra nova: "conforto". E não se cansa de a usar! Fala em conforto da situação e do conforto da educação... numa tentativa de apaziguar os revoltados manifestantes de hoje à tarde!

Como sabem é seu objectivo exterminar o Ensino Supletivo ou seja EXTINGUIR OS CANTORES. Mas isso não a impediu de ir assistir a um memorável concerto da Cecilia Bartoli na Gulbenkian (cuja direcção assinou unanimemente a petiçao Contra o Fim do Ensino Especializado da Música em Portugal).
A senhora foi sem vergonha assistir à performance de uma cantora lírica!
Realmente a próstata é um orgão que não me faz falta nenhuma...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Homo sapiens sapiens


Somos apenas humanos. E já é muito.

A posição erecta do Homem é o que o separa à primeira vista do resto do mundo animal. Toda a dignidade do Homem reside no facto de se locomover utilizando apenas os membros inferiores. É por isso que é quase impossível não soltar pelo menos um sorrisinho quando alguém cai.

É natureza humana procurar o transcendente e atingi-lo. A nossa mente é mais poderosa que uma bomba nuclear. Tomemos o exemplo da matemática - é pontífice máximo da inteligência humana, é pura, é perfeita. Chega mesmo a transcender muitas mentes humanas.

Mas, por outro lado, existe em cada um de nós um poderoso macaco. Por mais evoluído que o nosso intelecto seja, por mais limpa que a nossa alma esteja, há sempre a parte fisilógica da nossa máquina de sobrevivência - o corpo.

Corpo esse já tanto estudado com as nossas gloriosas 1.350 gramas de cérebro mas que ainda assim nos consegue surpreender com um fenómeno qualquer não tão evidente ao olho nu, deixando um trilho de pistas moleculares que nós seguimos alegremente e nos leva a uma porta que se abre num recreio infinito para o nosso intelecto.
A máquina, ao mesmo tempo que nos fascina, prende-nos e envergonha-nos. Porque mesmo a mais poderosa das mentes não consegue controlar necessidades corporais, básicas, iguais às dos outros seres filogenética, intelectual e espiritualmente inferiores.
Quantas ideias brilhantes se terão formado, quantas decisões importantes da História da Humanidade se terão tomado na latrina? Já diz, e muito bem, o povo há muitos séculos:

Caga o Rei,
Caga o Papa.
Sem cagar
Ninguém escapa.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Dia-a-dia do Médico Veterinário

Eu compreendo a importância da avaliação da consistênica das fezes na detecção de doenças. Não sei como é em Medicina Humana, mas as descrições que temos na nossa bibliografia são preciosamente deliciosas. Tomemos o exemplo da avaliação da consistênica das fezes de bovino, que temos de saber tão bem para o exame de Produção Animal:


1. Fezes aquosas e não reconhecidas como tal. Normalmente sinal de doença.
2. Fezes assemelham-se a pudim líquido. Quando expelidas espalham-se muito no solo.
3. Fezes assemelham-se a pudim espesso. Quando expelidas formam bolo fecal com cerca 2 cm espessura. A pressão com uma bota não deixa perfil e não é sentida sucção ao retirar. Ideal.
4. Fezes mais duras. Bolo fecal circunscrito, espalha-se pouco. É sentida sucção quando se retira bota e deixa perfil marcado. Som de chapa quando atingem o solo.
5. Fezes duras formando bolas. Pressão da bota deixa perfil marcado.

Qualquer um fica com fome depois de tal descrição. Um especial desejo por pudim, talvez?
Note-se bem que é necessária a avaliação sonora das fezes, o que pode implicar algum grau de perseguição, como um aficcionado, da nossa parte. Não está aqui descrito, mas o cheiro pode ser indicativo de uma panóplia de patologias. Felizmente ainda não inventaram um método que utilize o orgão dos sentidos que sobra. Acho especial piada a ter de realizar o Teste da Bota, aquele que evitamos concretizar todos os dias.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Neverending story

O drama, a tragédia, o desespero, o horror... é estudar Medicina. Apenas três temas: aparelho urinário, aparelho cardiovascular e hematologia; 26 horas de aulas, 52 horas a passar os apontamentos confusos das aulas para os slides pouco informativos fornecidos pelos docentes; 156 horas interpretando os hieróglifos das sebentas na tentativa de compreender a fisiopatologia e os mecanismos que levam à doença. É assim que se estuda Medicina. Mas não é assim que se passa no exame.

Toda a gente sabe que para passar a esta gloriosa disciplina não é preciso perceber, compreender, interiorizar, explicar, relacionar. Baseado em listas anteriormente contruídas por alunos mais velhos e acrescentadas (sempre acrescentadas) de alguma informação desinteressante mas essencial para passar, o estudo acenta em decorar as intermináveis listas.
Decorar para mim é uma tarefa difícil dada a fraca capacidade que tenho de armazernar informação. Desconfio que o meu cérebro é mais pequeno que o normal. Cheguei a esta conclusão depois de imitar uns gadalhudos roqueiros que vi a abanar o capacete. Ao fim de duas voltas com a cabeça (tal Eica Toppinen) fiquei incrivelmente tonta, confusa, baralhada e enjoada durante um período de tempo que me pareceu longo mas que não posso precisar. Como é que eles conseguem? Só tenho duas explicações: ou eles estão tão drogados que não lhes faz diferença rodar incessantemente a cabeça ou meu cérebro, por ser pequenito, chocalha contra as paredes do crâneo quando dou voltas à tola. Assim explico a imensa dificuldade que tenho em estudar Medicina: cérebro reduzido e ainda por cima essencialmente direccionado para funções abstractas e pouco práticas como a imaginação e viagens temporo-espaciais num mundo pessoal.

Como sempre, e com boa vontade, inicio o meu estudo lendo o material fornecido pelos professores. Aparelho urinário: demorado, cansativo, compreensível; o material de estudo são os slides das aulas e artigos que a professora se orgulha de ter escrito há dez anos. Nunca mais acaba de matéria e já não posso mais ouvir falar em xixi. Recuso-me a ir à casa de banho só para não pensar nos processos de filtração, excreção e reabsorção renais que me perseguem. Aparelho cardiovascular: só há slides das aulas; não tenho apontamentos porque não fui às aulas. Passo à frente - já não estou muito bem disposta e sinto um desejo crescente de cometer um crime violento. Hematologia: relembro porque desisti de ir a essas aulas. Os apontamentos podiam estar noutra língua que era igual para mim. Ainda hoje tenho dúvidas se a lista de fármacos do slide nº 7 corresponde à terapia ou se são as drogas que não devemos usar. Nesta fase o desespero instala-se e a incredulidade da situação associada a uma sensação de experiência extra-corporal leva-me a dizer coisas feias, palavrões, momentos de pura loucura com gargalhadas dementes.

Medicina. É perigoso estudar sozinho. Nunca estudar Medicina sozinho... a taxa de suicídio é assustadoramente elevada (não me atrevo a dizer) e a percentagem de alunos que são internados em asilos psiquiátricos ronda os 86.3%. Estudo numa biblioteca com as minhas companheiras nesta demanda, nesta epopeia, nesta cruzada... Não é por estarmos descabeladas na biblioteca da Faculdade de Letras que nos acanhamos de exteriorizar a nossa indignação:
- Que merd@ é esta? - grita face a um conjunto de slides idiotas sem texto, apenas bolinhas e estrelinhas. - Mas deu-lhe para a veia artística?
Tendo em conta que esta minha amiga, Susy de nome, passa à frente qualquer coisa que se assemelhe a figuras, esquemas, algoritmos e quadros, não me admirei que explodisse de raiva face aos ditos slides. Eu pessoalmente perdi tempo a pintar bolinhas de vermelho, estrelinhas de amarelo, formas não-identificadas de azul...
- Ele precisava era de uma visita aos colonócitos!
Eu e a Chiquilin rimos; sabemos que é verdade. Mas choramos... o desespero é muito... a biblioteca vai fechar daqui a duas horas e nós continuamos sem perceber o essencial da hematologia.
Deparamo-nos com duas doenças, parecidas apesar de distintas, numa sebenta com média de 5 palavras por slide. O slides, cujos títulos eram ora A.H.I.M. ora A.H.A.I., alternavam entre as duas doenças sem sequência lógica. Inicialmente pensei que os slides ímpares correspondessem a uma doença e os pares à outra; afinal não. Apliquei a sequência de Fibonacci, mas também não era essa a chave.
A Susy nem se apercebeu deste facto, o que contribuiu para que ficasse mais descabelada, vermelha, olhos cada vez mais assassinos...
- Sabes Susy... - disse timidamente - estão aí duas doenças... é por isso que pintámos os slides de uma doença de cor-de-rosa e os outros de laranja...
Ela chorou um bocadinho e depois pôs-se a pintar...
- Parece que estou na primária e não percebo nada... O problema dele é que não tem filhos!... Sucker... - deprimimos mais um bocadinho juntas. - Tentativa número 4. - recompôs-se, dando-nos um bocadinho de esperança de que o final do túnel tivesse uma abertura e que a razão pela qual não viamos nenhuma luz não era porque o túnel era interminável...

Numa tentativa de compreender os slides começamos a ler artigos escritos também pelo professor. Ficámos na dúvida se estavam escritos em português; conseguimos identificar algumas palavras mas a maioria parecia estar numa língua ainda não oficial, provavelmente apenas acessível a uma elite da qual nunca faremos parte. Desejámos ter uma estenose sub-aórtica e sofrer uma morte súbita sem sinais premonitórios.

- Pá, isto só pode ser a gozar! - dizíamos constantemente. Eu começo a desconfiar que estamos num reallity-show japonês e que as pessoas se estão a rir à força toda com o nosso sofrimento.

Lendo esta prova de verdadeira demência continuo lunáticamente convencida de que o leitor não compreende o sofrimento atroz de um estudante de Medicina Veterinária. Mas eu tenho provas: há quem fique inclusivamente com insuficiência renal crónica a estudar esta cadeira. A minha amiga Chiquilin... coitada já apresentava sinais típicos desta doença potencialmente fatal: anorexia, perda de peso, depressão, letargia, hipotermia culminando em encefalopatia.

Ao Curso de Medicina Veterinária dedico o seguinte, inpirado num grande artista do século XX:

Turn the page
And look for what you seak

In the text
The explanation of your dreams

They made believe
It's there somewhere
Hidden in the lines

Nowhere in the pages
Is the answer to this
Neverending story

A própria Susy tem um peluche do Falkor - uma premonição dos pais de que ela seria protagonista de uma História Interminável. O Falkor disse uma vez a Atreyu, o rapaz guerreiro: "Nunca desistas e a boa sorte encontrar-te-á." Quando a Susy descobriu isto destruiu brutalmente o boneco.
Esperamos pelas notas do exame...

sábado, 19 de janeiro de 2008

Poeiras

Há determinados lugarejos com demasiadas P.E.s por metro quadrado.
Há demasiadas P.E.s!
Encontro uma Pessoa Estranha.
Viajo no metro, penso: "Este homem é duro e frio; e...é forte."
Um arrepio e desviei o olhar. Cinco minutos de intensa e dedicada contemplação do Estranho para mim.Aproxima-se:
"Desculpe, você tem poeira nas calças".
"Obrigado".
"Tire!"
Sacudo a poeira branca da indumentária negra (hoje não é um bom dia para ser fuzilada penso, é sábado).
"Ainda tem poeira nas calças! Tire-a!"
"Não faz mal, deixe estar, obrigado..."
"É melhor [furia] tirar."
Sacudo energicamene, irritad@, cansad@, invadid@... agora que relembro, desconfio até, que se fosse necessário cuspiria nas calças...nas dele...
"Estava a incomodar-me", melhor assim...percebe?"
Claro que percebo, corria risco de vida se aquela poeira continuasse sobre o fundo negro...
Pessoa Estranha levanta-se, leva consigo a poeira, a paranoia e o perfeccionismo. Eu fico ali, sentad@, imperfeit@, revirad@ mas viv@...

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Ai a minha vida!!!

"Os Médicos Veterinários não podem prescindir de três condições: independência, disponibilidade e competência."
Are you ready?