Vivo em casa com gente insana.
Ainda hoje, ao observar o comportamento dos familiares do meu agregado familiar, tal Jane Goodall, me pergunto como conseguiram os meus pais gerar a pessoa normal que sou, ainda para mais inteligente, responsável, sensata, atenciosa, criativa e bonita acima da média.
Após pesquisa intensiva em livros e nos mais recentes artigos científicos de geneticistas conceituados mundialmente, concluí que a Insanidade é uma característica hereditária, provavelmente ligada ao cromossoma X, e a probabilidade de eu ter nascido perfeita foi de 25%. Reparem:
Como podem constatar, o meu pai, apesar de não-insano, tem
o seu quê de loucura e o meu irmão realmente teve muito azar com os gâmetas que lhe deram origem.
Estes factos têm implicações no meu dia-a-dia, e se para muitos é motivo de risota, para mim não tem piada nenhuma.
A minha avó, por exemplo, é cleptomaniaca, mas só rouba papel higiénico. Com tanta coisa que podia roubar, bem que podia trazer algo mais valioso, mas a
Cleptomania é mesmo assim. Enfim, como as coisas estão hoje se uma pessoa consegue poupar no papel higiénico ainda poupa alguma coisa e é aí que me afecta. Porque se a
Cleptomania, sendo uma doença psiquiátrica, pode justificar o furto de papel higiénico, a partir do momento em que este se torna valioso, a minha avó passa a ser considerada criminosa. Outra prespectiva deste problema prende-se com o facto de a minha mãe (com o seu
gen-ins) além de não estar sensibilizada para esta indiscrição da minha avó, sofre da conhecida patologia que se dá pelo nome de
Irresistência a Promoções de Supermercado, ainda por cima complicada por
Desconhecimeto Crónico dos Bens em Falta no Lar, o que resulta na compra semanal de "packs" familiares de papel higiénico ("para poupar dinheiro", são palavras da própria). E o balanço semanal de papel higiénico em minha casa é:
Ora, ao fim de um mês não há espaço para armazenar o excedente de papel higiénico devido ao carácter desproporcional da relação [número de rabos a limpar/quantidade de papel higiénico].
A minha mãe atinge outro patamar de implicação negativa no meu quotidiano. A título de exemplo, no sábado passado exigiu que removesse o gelo acumulado durante 5 anos no congelador, porque já estava incomodada com o facto de as gavetas não fecharem bem. Como sábado é dia de ir ao supermercado e havia uma quantidade impressionante de salada russa congelada (como lhe apetece muitas vezes salada russa, mas ninguém a faz, quando a vê no supermercado tem de a adquirir) desligar o frigorífico para que o gelo derretesse estava fora de questão. Assim, para que eu executasse a ingrata tarefa de remover o gelo deu-me uma colher de pau ("porque o picador de gelo risca-me o congelador todo!", explicou-me ela). Excusado será dizer que estive
horas com as minhas delicadas mãos no gelo, de joelhos na tijoleira, com neve, gerada por mim, a entrar pelas mangas da camisola. A minha mãe, ao ver dois alguidares de gelo bem cheios decide ajudar-me. Infelizmente, era um dia de exacerbação do
gen-ins e ela deitou os dois alguidares na sanita, admirando-se ao constatar que o gelo não progrediu pelo sistema de canalização. E isto
afecta-me! - depois de uma tarde a tirar o gelo do congelador precisava de ir a casa de banho e não pude porque não conseguia sentar-me na sanita.
Episódios destes fazem parte do meu dia-a-dia, mas por factores genéticos relacionados com a ausência do
gen-ins, simplesmente não me consigo habituar a eles.
Não me vou pronunciar relativamente aos casos de
Insanidade do meu irmão (portador dos genes
gen-ins e
gen-Q-craze) porque ele é maior e mais forte que eu.
Manter-vos-hei a par de manifestações típicas de Insanidade Familiar que vou presenciando. Por favor divulguem-nas, pois infelizmente esta é uma doença pouco conhecida fora da comunidade científica e há certamente muitas pessoas normais que sofrem com familiares vítimas desta devastadora patologia do foro genético.