
Como as ruas de Lisboa ganharam o Guiness na categoria de "buracos em alcatrão" é impreterível que os utentes se agarrem aos varões horizontais colocados acima do nível da cabeça. E é assim que se começa a propagar o odor desagradável e nauseabundo que sobe pelas narinas de pessoas como eu, que vão inocentemente (de banho tomado) a dormitar no autocarro e que acordam bruscamente, como se lhes tivessem espetado um picador de gelo na virilha. Para ajudar há sempre um tipo com um bafo matinal a álcool recozido que vai colado a nós.
Claro que nada disto é comparável com a essência tóxica que emana dos trabalhadores, estudantes, desempregados, pedintes e outros indefinidos lisboetas no regresso a casa. Já não é só o sovaco ácido e o hálito mortal que nos corroem a mucosa nasal! A roupa já sofreu processos químicos ao contactar com o suor e o cabelo já seboso de algumas pessoas mais descuidadas com a higiene pessoal liberta, com os movimentos da cabeça, brisas de frigideira usada há dois dias num jantar de famíla. Concentro-me nestes cheiros para ignorar os ténis do rapaz a meio metro de mim que, mesmo calçados, libertam um cheiro de fazer vomitar as tripas. Para alegrar a festa alguns engraçadinhos ainda soltam umas bufas podres.
Se pensava que, ao sair do metro aos empurrões e cotoveladas (sempre com um lenço na cara), me tinha livrado deste purgatório e podia finalmente descansar o meu aparelho respiratório, enganei-me redondamente. O amigo suspeito e fedorento do meu delinquente vizinho de cima estava sentado nas escadas do meu prédio. Por ter 16 anos, a mãe do fedelho mal-criado nem sempre o deixa sair mas isto não desmotiva o seu amigo, o texugo humanóide, que fica à sua espera o tempo que for preciso (o que pode levar horas). Enquanto espera vai impregnando a madeira das escadas e os tapetes das entradas com o aroma da sovaqueira mal lavada. Ou, provavelmente, não lavada de todo.
O martírio termina quando finalmente entro em casa. Pelo menos até descalçar os ténis.