
Comer um Ferrero Rocher é uma arte que nem todos sabem apreciar. Para desfrutar verdadeiramente este singular bombom uma pessoa deve estar no conforto e intimidade do seu lar, pois comê-lo em público é considerado na sociedade ocidental um acto pouco fino, ou como muitos dizem hoje em dia, "um nojo". Excepto em Itália, onde já nascem a saber comer um Ferrero Rocher.
É que comer um Ferrero Rocher, apreciando-o como um perito, implica comer o bombom às camadas.
Assim, primeiro trinca-se a cobertura de chocolate e avelã aos bocadinhos, com o cuidado de não partir a delicada bolacha wafer que está por baixo. Nesta etapa caem muitas milgalhas de chocolate-avelã e é para isso que serve o papel castanho; não é um adorno inútil e imagem de marca deste famoso pecadilho da Ferrero.
Chega a vez de desfazer a concha crocante de wafer. O wafer pouco doce faz um "reset" às papilas gustativas, preparando-as para receber, em todo o seu esplendor, o chocolate, aquele nutella cremoso e mole que se cola nos dedos à medida que vamos desfazendo o wafer. É nesta fase que o indicador e o polegar ficam cheios de chocolate meio chupado e as comissuras labiais estão saborosamente castanhas. É precisamente neste momento que uma pessoa entre em delírio com o bombom e coincide com a fase menos aceite socialmente da degustação do chocolate.
E finalmente, depois de saborear o creme de chocolate vem o clímax - desfazer a avelã inteira e torrada nos dentes molares; e temos novamente a combinação divina de chocolate (residual na boca mas ainda com uma forte presença) e avelã, mas com uma nova e supreendente textura. Depois do êxtase, deixa-se repousar a boca durante uns momentos, enquanto se pensa no prazer que foi comer o Ferrero Rocher. Nestes instantes, a sala, esquecida por completo, torna-se de novo real e apercebemo-nos, então, que temos na mão o papel castanho com migalhas de chocolate e avelã. Com o indicador apanham-se delicadamente as migalhas e saboreiam-se as mesmas saudosisticamente.
Sugiro que experimentem comer um Ferrero Rocher como ele deve ser comido, como ele foi feito para ser comido, ao som do 2º andamento da 7ª sinfonia de Beethoven. Ponham a música a correr e iniciem o ritual, descascando lentamente o bombom, saboreando-o por etapas, sentados no conforto do sofá da sala de estar. Nunca mais quererão colocar um Ferrero Rocher inteiro na boca.