
Hoje, a caminho do estágio de orquestra da ESML, tive uma das conversas mais estranhas e, diria até, assustadoras da minha ainda curta existência.
Infelizmente, aos sábados, o autocarro 799 que costumo apanhar para chegar à Escola, não circula. Como é óbvio, desconhecia totalmente este relevante facto e esperei uns 20 minutos pelo autocarro. Ao 21º minuto de espera achei por bem verificar o horário do 799 e contra factos não há argumentos: fui para outra paragem e apanhei a carreira 3.
Entrei no autocarro e sentei-me ao lado de uma velhota com excesso de peso. Como o autocarro 3 estava a dar voltas labirínticas por Benfica, zona que desconheço por completo, decidi perguntar à senhora de idade se aquele autocarro parava efectivamente ao pé da Estação de Benfica, porque sinceramente, já não confio em mim própria no que diz respeito a confirmação de horários e percursos da Carris, essa nobre instituição.
- Oh, menina! Pára, sim senhor! - respondeu a senhora exibindo os seus seis dentes.
- Muito obrigada!
Simpática a senhora. Achei eu.
- Sabe que eu quando vou à casa de banho para mijar, faço de pé!
Esta conversa é comigo? Não pode ser... Com certeza é na sequência de uma qualquer conversa com outra velhota e que eu, na minha distração habitual, nem ouvi.
A velhota agarra-me no antebraço com força. É mesmo comigo que ela fala.
- É assim, eu pego em papel higiénico e levanto o tampo da sanita, depois arregaço as calças e mijo! - explica-me, presenteando-me com um gafanhoto semi-sólido que aterra na minha bochecha esquerda, demasiado perto da boca do que eu gosto de recordar. Se por um lado estava petrificada, por outro perguntava-me que queria ela dizer com arregaçar as calças para urinar, mas não ousei perguntar. Na verdade, não sei se queria mesmo saber a resposta. - Era assim que eu fazia, quando era peixeira e trabalhava no Cais do Sodré! Mas agora aquilo é tudo restaurantes. Estão lá todas! Todas! Casadas, viúvas, solteiras! Agora vai tudo para lá!
Este discurso não me pareceu coerente mas eu confesso que o meu cérebro encontrava-se 30% focado na conversa e 70% concentrado num gafanhoto branco que bailava nos lábios rugosos da senhora e que ameçava saltar para o meu olho cada vez que ela dizia um "F" ou um "P".
- Oh menina! É aqui a Estação de Benfica! Tem de sair agora!!!
Saí atrapalhada do autocarro, brutalizando os passageiros com o violoncelo que levava desajeitadamente às costas, apenas com uma alsa.
Hoje de manhã não precisei de beber café.